Paulo Melo Gain era um monge zen, talvez um mestre zen Brasileiro e começamos a praticar juntos, eu e ele em São Paulo, em Bushin-ji. Paulo era um brilhante aluno de engenharia do ITA, Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, era o primeiro colocado nesta que é a mais puxada Universidade do Brasil. Ao se formar no ITA, sabendo da excelência fora do comum daquele aluno, choveram convites dos EUA, mas ele os recusou a todos, porque era anticapitalista.
Eu o conheci justamente quando ele estava se formando, e começando suas práticas de meditação, a gente devia ter seus vinte e poucos anos, eu tinha vinte e sete mais ou menos. Ele justamente buscou no zen a excelência que ele buscava em todos os campos do conhecimento. E ele estudou todos os grandes Mestres Chineses, especialmente Huang Po por quem era apaixonado. Paulo, ao se formar na faculdade e começar a trabalhar com engenharia de águas, sua especialidade, era um apaixonado por Mozart.
Logo depois, conhecendo o Mestre Tokuda, o convidou para dirigir o Mosteiro de
Ibiraçu, Espírito Santo, onde comprou um terço das terras. Anibal Jippo comprou outro terço e o Cristiano Bitti Daiju entrou com o terceiro terço, tendo-o herdado dos pais. Paulo era a alma deste empreendimento, e seu treinamento era completamente fora do comum. Ia para cavernas no Itacolomi, em Ouro Preto, sua terra natal (não é à toa que o grande zen do Brasil está localizado em Minas Gerais) e ali ficava o fim de semana inteiro em meditação, voltando das cavernas, é claro, com pneumonia, pois quem já morou lá sabe como é frio na cidade, muito mais ainda nas montanhas.
Trancava-se em seu quarto em sua casa também durante tudo um fim de semana e meditava
direto. Em seguida a isto fez uma prática severa no Mosteiro de Ibiraçu sob a orientação do Mestre Tokuda, onde esse seleto grupo dos primeiros monges brasileiros do zen realizavam dois sesshins de sete dias por mês, prática inaudita, talvez no mundo inteiro, naquela época sem dúvida Ibiraçu era o principal mosteiro do mundo, somente nós não sabíamos disto.
Eu também participava ocasionalmente, uma vez por anos dos retiros, às vezes do
mortífero Rohatsu em dezembro, quando monges e leigos praticavam até a meia noite, dormindo em lótus, e despertando às duas da madruga para praticar direto durante sete dias. Nestas ocasiões, ninguém entrava nem saía do mosteiro, muitos atletas profissionais que tentavam atravessar esta verdadeira maratona não aguentavam e chegavam a desmaiar no transcorrer deste verdadeiro teste de limite de resistência física e espiritual e porque não dizer psicológica. Foi durante estas duras práticas que o Paulo Gain atingiu a iluminação, sendo portanto o primeiro iluminado que se tem
notícias no Brasil, e mestre de todos nós, nos beneficiando com seus muitos ensinamentos, sua generosidade realmente sem limites.
Mestre Tokuda sempre dizia que quando eram necessários contribuições e esforços fora do comum, somente se podia contar com o Paulo e com o Anibal Jippo. Foi assim, que
após grande decepção em Ibiraçu, quando o Japão não reconheceu suas contribuições para a feitura daquele mosteiro, que eles sem pestenajar imediatamente levantaram o Mosteiro Zen Pico de Raios em Ouro Preto, MG, do qual temos tantas boas lembranças, com seus festivais de música clássica durante o inverno de Ouro Preto, quando grandes orquestras européias vinham tocar lá, e descíamos dos sesshins diretamente para os concertos, no meio do frio do inverno. Paulo também realizou angôs em mosteiros no Japão, e onde quer que ele fosse sempre haviam anedotas engraçadíssimas a serem contadas.
Durante o ango, ele não gostava de um mestre Japonês, mas o mestre Tokuda lhe dizia, "Tem que fazer reverência para ele de qualquer maneira". Mas o Paulo, que acima de tudo era sincero, cada vez que batia a cabeça no chão fazendo prostrações, soltava gazes. Também de certa feita foi descoberto um estranho e desconhecido inseto nos tatamis do mosteiro, e o mosteiro teve que ser colocado em quarentena, sendo o inseto enviado para análises em Toquio. Mais tarde foi descoberto tratar-se de um carrapato mineiro, exatamente de Ouro Preto.
Por vezes tínhamos que ficar naquela postura dolorosíssima para nós Ocidentais, ajoelhados em cima dos calcanhares, que os japoneses chamam de seiza. E uma comprida e infindável cerimônia do chá desenrolava-se, seguida de uma aparentemente interminável palestra do Mestre do Mosteiro, e nós brasileiros lá no tal do seiza. Quando o Mestre deu uma pequena pausa para respirar o Paulo sussurou para o encarrgado do sino "Vai lá, bate, bate para terminar". Eu não aguentei e tive uma explosão de risos, rolando com um ataque de gargalhadas na frente dos compreensivos e atônitos anfitriões japoneses.
Mas para aqueles que questionam se o Paulo era iluminado ou não, eu pergunto: "Quem era sempre o primeiro a sentar em meditação, e quem sentava incessantemente como os velhos Mestres, ele ou você que está pronto a atirar a primeira pedra? Você já criou dois mosteiros em sua vida, para tal é preciso uma auto-confiança no Caminho muito grande, de que nesta vida a coisa mais importante é criar um mosteiro para que o seu povo tenha a possibilidade de ganhar a iluminação. Somente uma pessoa já iluminada pode ter tal consciência. Tenha uma sincera auto crítica e veja a diferença entre
as pessoas, ao menos uma vez".
Paulo tinha uma grande biblioteca Budista e estava sempre estudando, todos os dias do ano, sendo que o seu sutra favorito era o Sutra Lankavatara, na tradução de Daisetz Suzuki, o qual ele sabia de cor. Também no campo profissional era reconhecidamente um grande engenheiro de águas. Mas era um incompreendido, pois sendo a pessoa brilhante que era, sempre o primeiro entre os primeiros, não conseguia compreender a mediocridade e como seria possível que as pessoas se dedicassem somente de meio coração às práticas zen. Isto para um gênio era inconcebível, e era exatamente esta circunstância que o separava do comum da humanidade, que é morna. Ele era quente e não medíocre. Tinha coisas em que parecia um menino. Chegava nas casas das pessoas que mantinham passarinhos em cativeiro para que cantassem exclusivamente para aquela família, e simplesmente abria a portinha e
deixava que os passarinhos se fossem em liberdade. Agora justamente foi a alma dele que foi posta em liberdade, enquanto que ficamos aqui diminuídos com sua ausência, com a sensação de enclausuramento depois que ele se foi.
Agora temos a exata dimensão de como ele vai fazer falta, somos somente nós para mostrar a que vem o zen, sem o Paulo e isto ficou realmente difícil para os que restaram aqui. Podia dizer mais, mas sem dúvida o Mestre Tokuda chegará do Japão em julho e as coisas mais importantes a serem ditas do Paulo ainda serão mencionadas, em vez deste pobre ensaio manco".
Marcos Beltrão Frederico
12 março, 2009
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