Ainda que haja passado e presente, a existência se manifesta a cada instante, e o presente absoluto, no qual não há nem passado nem presente. Tal qual uma pérola que rola num espelho, este presente absoluto se perpetua.
Certas pessoas – aqui compreendidos monges – dizem: "Eu pratiquei muito duramente no passado, no mosteiro", e eu realmente gostaria de crer nisto. "Mas, isto foi quando? – Foi há trinta anos. – E agora o que você está fazendo? – Estou velho, então estou repousando". Neste caso, não existe mais prática, a prática não foi perpetuada. Esta continuidade da prática, difícil de ser mantida, é entretanto o aspecto mais importante, como sublinha Dogen Zenji no Zuimonki.
Quando estamos doentes, pensamos em primeiro lugar em nos curar para em seguida voltar à prática; ou então que devemos manter nossa família (é claro que isto é muito importante), ou sua mãe idosa e dependente, e esperamos, esperamos, pensando que depois de sua morte, começaremos a praticar; se temos um cachorro que nos manteve companhia há anos, hesitamos a confiá-lo a alguém mais com medo que ele vá sofrer, ele é tão bonzinho! Então, esperamos que o cãozinho morra, perdemos três, quatro, ou cinco anos e quando finalmente nos cremos livres, encontramos ainda múltiplas razões para repudiar o momento da prática. "Eu farei isto". Isto nunca é no presente, é sempre no futuro; para entrar no mosteiro, porque estamos persuadidos que precisamos nos preparar suficientemente com dinheiro, esperamos, e finalmente desistimos disto. Interromper a prática por causa destas coisas todas quer dizer que algo não funciona, e sobretudo perdemos para sempre a ocasião de realizar algo importante. Se ao contrário, nos abandonamos, se renunciamos a nós mesmos, é possível que um evento aconteça e que recebamos ajuda, compreendida aqui uma ajuda financeira.
Não há nenhuma certeza, mas se você espera aquilo que isto aconteça, nunca poderá "entrar". Este momento quando decidimos, de alguma forma, de entrar custe o que custar, não é exatamente a realização, mas é já a prática gyoji, a prática justa de numerosos mestres que nos precederam, de todos estes mestres citados no capítulo "Gyoji" e que Dogen Zenji chama kobutsu ("budas velhos").
Este momento crucial da escolha pode ser comparado com o fato de se caminhar sobre a lâmina da espada. Se você calcular, se você se perguntar: "Posso fazer isto ou não?", então, você já está morto. Em primeiro lugar, é necessário rejeitar seu corpo, sua consciência, seu ego.
Esta prática gyoji da qual falamos não tem nada a ver com o estudo do budismo ou seu ensinamento. Porque o budismo recomenda não ler? Porque ler livros é um freio à prática, que todos os conhecimentos acumulados nada têm a ver com a prática, esta prática gyoji da qual falávamos; além da prática e do conhecimento, existe uma coisa mais vasta da qual não estamos conscientes. Para passear um cachorro, pegamos uma corda que se estende a fim de termos um pouco mais de liberdade, mas quando esta corda se desenrola ao máximo, o animal não podendo ir mais longe, é obrigado então a voltar. Para nós é parecido: depois de ter esgotado todas as razões para escapar ao caminho, num dado momento, não podemos mais nos subtrair a isto. No momento da decisão, os livros não têm utilidade alguma.
(Trecho de Teishô do Mestre Tokuda traduzido pelo Monge Marcos e publicado por Giorgia Sena)
Certas pessoas – aqui compreendidos monges – dizem: "Eu pratiquei muito duramente no passado, no mosteiro", e eu realmente gostaria de crer nisto. "Mas, isto foi quando? – Foi há trinta anos. – E agora o que você está fazendo? – Estou velho, então estou repousando". Neste caso, não existe mais prática, a prática não foi perpetuada. Esta continuidade da prática, difícil de ser mantida, é entretanto o aspecto mais importante, como sublinha Dogen Zenji no Zuimonki.
Quando estamos doentes, pensamos em primeiro lugar em nos curar para em seguida voltar à prática; ou então que devemos manter nossa família (é claro que isto é muito importante), ou sua mãe idosa e dependente, e esperamos, esperamos, pensando que depois de sua morte, começaremos a praticar; se temos um cachorro que nos manteve companhia há anos, hesitamos a confiá-lo a alguém mais com medo que ele vá sofrer, ele é tão bonzinho! Então, esperamos que o cãozinho morra, perdemos três, quatro, ou cinco anos e quando finalmente nos cremos livres, encontramos ainda múltiplas razões para repudiar o momento da prática. "Eu farei isto". Isto nunca é no presente, é sempre no futuro; para entrar no mosteiro, porque estamos persuadidos que precisamos nos preparar suficientemente com dinheiro, esperamos, e finalmente desistimos disto. Interromper a prática por causa destas coisas todas quer dizer que algo não funciona, e sobretudo perdemos para sempre a ocasião de realizar algo importante. Se ao contrário, nos abandonamos, se renunciamos a nós mesmos, é possível que um evento aconteça e que recebamos ajuda, compreendida aqui uma ajuda financeira.
Não há nenhuma certeza, mas se você espera aquilo que isto aconteça, nunca poderá "entrar". Este momento quando decidimos, de alguma forma, de entrar custe o que custar, não é exatamente a realização, mas é já a prática gyoji, a prática justa de numerosos mestres que nos precederam, de todos estes mestres citados no capítulo "Gyoji" e que Dogen Zenji chama kobutsu ("budas velhos").
Este momento crucial da escolha pode ser comparado com o fato de se caminhar sobre a lâmina da espada. Se você calcular, se você se perguntar: "Posso fazer isto ou não?", então, você já está morto. Em primeiro lugar, é necessário rejeitar seu corpo, sua consciência, seu ego.
Esta prática gyoji da qual falamos não tem nada a ver com o estudo do budismo ou seu ensinamento. Porque o budismo recomenda não ler? Porque ler livros é um freio à prática, que todos os conhecimentos acumulados nada têm a ver com a prática, esta prática gyoji da qual falávamos; além da prática e do conhecimento, existe uma coisa mais vasta da qual não estamos conscientes. Para passear um cachorro, pegamos uma corda que se estende a fim de termos um pouco mais de liberdade, mas quando esta corda se desenrola ao máximo, o animal não podendo ir mais longe, é obrigado então a voltar. Para nós é parecido: depois de ter esgotado todas as razões para escapar ao caminho, num dado momento, não podemos mais nos subtrair a isto. No momento da decisão, os livros não têm utilidade alguma.
(Trecho de Teishô do Mestre Tokuda traduzido pelo Monge Marcos e publicado por Giorgia Sena)
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