22 outubro, 2008

Muito Além das Palavras


Gostaria de compartilhar aqui no blog meu depoimento pro livro do Mestre Tokuda. Terminei hoje:

"Puxa, vida! Relutei tanto em escrever este depoimento! E só o faço nos últimos minutos do segundo tempo da prorrogação... Muito, muito difícil escrever sobre o Mestre Tokuda porque ele transcende completamente as palavras. Falar sobre o Mestre Tokuda é como falar sobre o Amor. Ou sobre o Zen. Não dá pra falar, tem de sentir.

O Mestre Tokuda é uma pessoa tão leve, alegre, amorosa, íntegra...! A gente consegue perceber isso a todo instante. Em cada gesto. Não é preciso conhecê-lo ou praticar o Zen para sentir isso. A luz que ele tem alcança as mais variadas pessoas, sem que ele precise dizer qualquer coisa.

Lembro de uma ocasião em que subimos a serra catarinense e estacionamos num mirante. Ao nosso lado, estacionou um carro. Do nada. Todas as pessoas daquele carro, que não o conheciam, nem sabiam quem ele era, voltaram seus olhos pro Mestre Tokuda, como que hipnotizadas... e sorriram! Nessa mesma época, em Florianópolis, no caminho do aeroporto, várias crianças que passavam pela rua acenavam para ele.

A forma amorosa como Mestre Tokuda trata qualquer pessoa me toca profundamente o coração, como uma grande lição que eu lembro todos os dias. Não há separação entre ele e os outros. Pode ser numa lanchonete, por exemplo. As pessoas ficam completamente à vontade na sua presença. Mestre Tokuda trata cada um como um velho amigo, um irmão. E é sempre atencioso, educado e gentil com as pessoas. Sempre tem um sorriso acolhedor, que traz as pessoas para perto de si. Resolve as coisas com elegância e sabedoria, mesmo quando a situação é complicada e exige muita firmeza.

Estávamos Mestre Tokuda, Monge Marcos e eu num restaurante no Leme. A conta veio errada. Muito errada. Era quatro ou cinco vezes o valor devido. Eu logo reclamei pro garçon, que corrigiu a conta. Intimamente, fiquei bastante contrariada. Pensei: - o garçon viu que ele era japonês e se aproveitou do fato... E o Mestre Tokuda? Mestre Tokuda foi super simpático com o garçon, deixou uma gorjeta polpuda e, na saída, bem sorridente, brincou com ele: - Puxa, que pena que não era aquele valor! Eu queria gastar os meus últimos reais!

Numa outra situação, bastante séria e delicada, Mestre Tokuda me mandou ficar quieta. Voto de silêncio mesmo. Por tempo indeterminado. Diante de mentiras e difamações que o envolviam diretamente. Minha reação natural, advogada que sou, seria a de defendê-lo até a morte, provando por A mais B que aquilo tudo era mentira, que não fazia o menor sentido. Mas não. Ali ele me deu a grande lição do silêncio. Foi duro, mas não abri a boca. Em nenhum momento. E isso fez toda a diferença.

Minha mãe teve pouco contato com o Mestre Tokuda, mas sempre lembra dele, dos seus ensinamentos. Vez ou outra me conta quando usa no seu dia-a-dia o que aprendeu com o Mestre. Não raras vezes, minha mãe fala "- Filha, como diz o Mestre Tokuda..." e me dá algum conselho relembrando o que ele disse. Sempre lembra da importância de manter o silêncio em determinadas situações, de não criar ondas. Minha mãe conta, ainda, de uma senhora jardineira, pessoa simples, de pouco estudo, que às vezes trabalha no jardim da casa dela. Viu o Mestre Tokuda uma única vez. Mas nunca esqueceu. Sempre fala dele. O Mestre Tokuda é assim, marca a vida da gente de uma maneira indelével.

Ouvi, recentemente, numa entrevista que ele deu em Goiânia: "- Pra tudo tem uma saída!" Mestre Tokuda é de um otimismo incurável! E olha que ele já enfrentou todo o tipo de dificuldade... sem esmorecer, nem perder a sua imensa ternura! Mestre Tokuda tem uma imensa capacidade de perdoar: basta um arrependimento sincero e verdadeiro. O coração dele está sempre aberto.

Vi o Mestre Tokuda dançando na casa do Régis, em Belo Horizonte. Com quase setenta anos, Mestre Tokuda parecia um menino! Tão completamente leve... Em relação ao Mestre Tokuda, daria pra parodiar aquela frase de Gandhi: seu ensinamento é sua vida.

Por onde o Mestre Tokuda passa, vai deixando um rastro de luz. Parece que ele deixa "sementinhas de zazen" por onde quer que ande. Há grupos que ele fundou há mais de vinte anos... e que, mesmo sem ele, continuam sentando religiosamente. Sua presença e sua mensagem são tão fortes que resistem e superam qualquer ausência. Mestre Tokuda está com a gente mesmo quando não está.

Quando me despedi dele, agora, em 2008, no Galeão, não senti tristeza alguma. E olha que eu sou chorona! Mas não derramei uma única lágrima. Porque sei que ele nunca, jamais estará longe.


Tenho enorme gratidão por ele, com quem aprendi as lições mais importantes da vida. E essa gratidão se estende também ao Monge Marcos Beltrão, seu mais fiel e mais próximo discípulo, sucessor no Dharma e encarregado de prosseguir no trabalho do Mestre Tokuda aqui no Brasil, para que essa Luz jamais se apague..."

Giorgia Sena

Um comentário:

Amigos do Tokudinho disse...

Que lindo o que você escreveu, Giorgia! Confesso que me deu uma enorme saudade do Mestre Tokuda, mas como você bem colocou, a presença dele transcende o espaço-tempo. Em alguns momentos tenho sentido essa presença tão pertinho que dá até pra 'conversar' com ele!

Quero compartilhar minha experiência de conhecer Mestre Tokuda. Estive muito pouco tempo com ele, mas parece que já o conhecia há muitos anos, foi como reencontrar um velho amigo. Me parece que pra ele todos os seres são velhos amigos.

Então lá vai...
Estávamos aqui em casa, eu, Monja Telma, Maddi e minha mãe Maria José (prestando uma assistência técnica para garantir o bom funcionamento de sua rebelde máquina de costura), meu cachorro Luck e minha gata Nikita. Era o último dia da nossa 'oficina de costura zen', idéia da monja Telma, terminando nossos kesas. Eu tinha sugerido que fizéssemos uma pequena confraternização entre nós, um lanchinho, cada um trazendo algo, para simbolicamente selarmos o término dessa etapa de nossa ordenação.

Monja Telma disse que o monje Alcio passaria aqui no final para aprovar os kesas, ver se estava tudo direitinho, etc. Aceleramos o ritmo pra terminar tudo antes que ele chegasse. A casa era pano pra tudo quanto é lado, a máquina na sala, muita linha espalhada pelo chão (Nikita e Luck adorando a bagunça). De repente toca a campainha. Monja Telma com aquele sorrisinho mineiro maroto e eu nem desconfiei de nada.

Abro a porta e quem estava na frente da comitiva? Mestre Tokuda! Nossa, foi muita emoção, fiquei tão nervosa que não sabia o que fazer, então fiz gasshô, eu nem sabia se tava fazendo direito! Ele retribuiu e deu um enorme sorriso, Monje Alcio e Monje Marcos nos apresentaram, ele apertou minha mão e foi logo entrando no meio daquela bagunça!

Todos se sentaram e eu fui improvisar um lanche pra servir, na tentativa de me aquietar internamente tamanha era a minha emoção. Aos pouquinhos, ainda na cozinha, fui ficando à vontade, tranquila, mente, energia e corpo começaram a serenar. Levei o lanche pra sala onde todos conversavam alegremente.

Monje Marcos e Monje Alcio pareciam dois colegas de escola brincando no recreio (me emocionei ao vê-los tão felizes na presença de seu querido professor). Entrei na brincadeira também! A conversa não tinha nada de formal, mas as palavras mais corriqueiras eram absolutamente corretas, sagradas, 'muito além das palavras'.

Em dado momento sentei-me ao lado dele que me mostrou as fotos de Etai-Ji na sua câmera. Nessa hora ele também parecia um menino no recreio da escola, mostrando a sua coleção de figurinhas aos colegas.

Monja Telma continuou fazendo o dever de casa (estava terminando sua costura à mão), aluna aplicada que é, mas eu percebia seu sorriso discreto e silencioso, entrando junto naquela brincadeira! Bem quietinha, sem ninguém perceber, ela filmou alguns momentos com a câmera de seu celular. Descontração Plena! Esse era o clima!

No dia seguinte, pela manhã, quando fui regar minhas plantas, notei que surgiam os primeiros botões de minhas orquídeas (um pouco antecipados, pois deveriam surgir somente em setembro, um ano depois da última floração). Lá em Eisho-Ji, fiquei sabendo da paixão de Mestre Tokuda pelas orquídeas, mas só descobri que minhas orquídeas tinham se apaixonado por Mestre Tokuda quando voltei de Pirenópolis e elas estavam completamente abertas, radiantes e serenas! Me disseram que a floração duraria uns três meses, mas elas estão lindas até agora!

E foi assim que vi A Flor do Dharma fazer desabrochar as Flores do Dharma...

Gasshô,
Valeria Sei In