Segue abaixo trecho de reportagem do Jornal A Tarde, com Monja Ivone Jishô.
"Perfeição é continuar caminhando"
Marcos Dias
Em agosto de 1996, em Recife, um grupo de interessados no zen-budismo reuniu-se em torno da potiguar Ivone Jishô (que quer dizer Luz Radiante que Dá Alegria aos Outros), que havia sido ordenada monja pelo mestre Ryotan Tokuda Igarashi em janeiro daquele ano. Ela começou a praticar em 92, com temporadas em mosteiros em Minas Gerais, Japão e França, e assumiu o compromisso com a transmissão dos ensinamentos para que novas gerações conheçam o caminho zen. No último dia 7, foi criado oficialmente em Salvador um grupo zen no Garcia. Ivone, 44, chegou à cidade no dia 3 de fevereiro de 2006 para dar continuidade aos seus estudos iniciados em 2000 com um mestrado em Recife e, atualmente, está concluindo o doutorado na Faculdade de Educação da Ufba, com defesa marcada para 14 de agosto, aprofundando seus conhecimentos sobre o mestre Dogen, fundador da Escola Soto, à qual o grupo se filia. Nessa tradição, a ênfase é dada ao zazen – prática de meditação sentada. “Toda a vida do praticante se torna meditação”, diz ela , “e tudo tem de ser feito com plena atenção e inteireza: usar o toalete, preparar um alimento ou limpar a sala tem a mesma importância”. O que quer que se faça pode ser uma experiência meditativa. E esclarece sobre a gestão coletiva do espaço: “A meditação não tem fins lucrativos. Não recebo por um suposto trabalho. Nos juntamos para criar as condições“. Nesta entrevista, realizada na sala de meditação, ela falou sobre zen, Deus, morte, sexualidade, iluminação e cotidiano.
O zen é conhecido por seu caráter anti-intelectual. Como é lidar com a sua formação e o que o zen prescreve?
Quando comecei os estudos, eu tinha essa ideia porque a gente é convidado a fazer a experiência sem a explicação prévia. Quando estive no Japão, percebi que eles têm culturalmente isso de poder acolher a vivência e buscar entender depois. Mas a gente no ocidente tem costume de querer a explicação antes para poder autorizar a vivência. O que descobri vivendo, pois foi na vivência que fui orientada a buscar os estudos e depois nos textos, é que não existe um desprezo pela parte intelectual, existe é uma inversão na ordem, da forma de lidar com isso.
E quando a racionalidade pode ser um problema?
Se a gente isolar a racionalidade, a gente está criando dualidade entre o que é racional e o que não é racional. Estou chegando à conclusão que a não-dualidade é uma simultaneidade: é o atravessamento das diferenças numa possibilidade de conviver simultaneamente com as várias visões. Então, racionalidade, sim; intuição, sim; experiência empírica, sim; e, junto, isso acaba dando para a gente uma possibilidade de conhecer as coisas, de viver e integrar. O problema da racionalidade acaba sendo o limite que ela tem quando a gente tenta entender a vida exclusivamente pela razão. Se a g ente tentar entender o que é a vida, o que é o amor, o que são as relações humanas, exclusivamente, pelo racional, a gente vai ver que acaba criando um abismo entre o que a gente pensa e o que acontece. E se a gente não consegue integrar, fica aquela história que na teoria é uma coisa e na prática outra, e a gente fica nessa dualidade, às vezes sofrendo, sem conseguir encontrar conexão.
Publicado por Giorgia Sena
28 abril, 2009
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